Save me Tonight
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postado: domingo, 3 de julho de 2011
título: Amplitude (Sonhos).
O último ônibus acaba de passar e não sei o horário do próximo trem, se bem que para onde vou de nada adiantaria estar em qualquer um deles. Esta é a primeira noite de inverno, não a mais fria, mas certamente a mais exuberante. A estranheza é causada pelo fato de poder andar a pé por alamedas vazias que corriqueiramente são abarrotadas de gente, luzes, carros, poluição e violência.
 Banalizamos o desprezível a ponto de realmente sentir sua falta, reclamamos da rotina diuturna, mas sem ela o que seriamos? Talvez transeuntes solitários de uma realidade irreconhecívelmente familiar. A característica de introspectividade inerente a nós não pode existir em um ambiente como este, sequer seria razoável, por que no fundo busca-se somente ser notado, mesmo que se diga isso ao avesso, percebendo não existir plateia para tão distinta representação, nos resta o quê?
 Somos na verdade coadjuvantes de uma cena sem atores principais, só percebemos a importância daquilo que tanto lamentamos quando o set está vazio. Neste momento até o cidadão maltrapilho, que pela manhã será tido como marginal, serve de companhia. O tão almejado sonho de poder dirigir sem buzinas e congestionamento pode ser realizado agora, entretanto onde estão estas pessoas que, exatas seis horas atrás, estavam a sonhar com isso? Provavelmente estão sonhando com outras coisas irrealizáveis para o momento.
Às vezes passamos horas, dias, meses e até anos construindo algo que durará apenas alguns segundos, sendo que no exato momento de sua concretização não estaremos ali para presenciar tão esplendoroso acontecimento. É como se sonhássemos tão intensamente com algo a ponto de tornar este sonho realidade e, justamente na hora de desfrutar de tal deleite, acordássemos com o despertador indicando serem sete horas da manhã, ou seja, atrasado novamente para sua realidade rotineira.
O impossível não o será para sempre, ele será possível em um momento específico e tão somente naquele momento, caso percas tal oportunidade conviverás com o eterno impossível, caso estejas no local e momento designado para o impossível tornar-se possível, jamais necessitará acordar às sete da manhã e enfrentar a tão temida rotina. Em suma, seus sonhos dependem mais de você do que você depende deles.


Ele tirava troncos de madeira da água e os trazia para a praia. Na areia
molhada, havia plantado meio círculo de troncos próximos uns dos outros, na
altura dos seus olhos. Havia quatro troncos e, quando acordei, vi Tyler puxando o
quinto para a praia. Tyler cavou um buraco sob uma das extremidades do tronco,
levantou a outra, o tronco escorregou para dentro do buraco e lá ficou, levemente inclinado.
Você acorda na praia.
Tyler desenhou uma linha reta na areia, alguns metros à frente. Depois
voltou para pôr o tronco em pé e socou areia ao redor da base.
Só eu estava vendo isso.
Tyler gritou de longe:
— Sabe que horas são?
Eu sempre uso relógio.
— Sabe que horas são? Onde? — perguntei.
— Aqui mesmo. Agora — disse ele.
Eram quatro horas e seis minutos da tarde.
Em seguida, Tyler sentou-se com as pernas cruzadas na sombra dos troncos
plantados. Ficou lá um tempo, levantou, tomou banho, vestiu camiseta e calça
moletom e se pôs a caminho. Eu tinha de perguntar.
Precisava saber o que Tyler ficara fazendo enquanto eu dormia.
Se eu pudesse acordar em outro lugar, numa outra época, seria outra
pessoa?
Perguntei a Tyler se ele era artista.
Tyler ergueu os ombros e mostrou que os troncos eram mais largos na base.
Mostrou o traço que havia feito na areia e disse que usou essa linha para nivelar a
sombra projetada pelos troncos.
Às vezes, você acorda e precisa perguntar onde está.
O que Tyler fez foi a sombra da mão de um gigante. Naquele momento os
dedos eram longos como os de Nosferatu e o polegar muito curto, mas ele disse
que às quatro e meia em ponto as mãos ficariam perfeitas. A mão do gigante
ficou perfeita por um minuto, e por um minuto perfeito Tyler sentou-se na palma
da perfeição que ele próprio criara.
Você acorda e não está em parte alguma.
É só um momento, disse Tyler, você dá um duro danado, mas um momento
de perfeição vale qualquer esforço. Um momento é o máximo que se pode
esperar da perfeição. (Fight Club).
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