Save me Tonight
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postado: segunda-feira, 6 de junho de 2011
título: Prólogo
- Doutor, dizem que o que tenho não tem cura, que não consigo distinguir o real do abstrato, sequer sei se o senhor é real.
- Não me achas real Henrry?
- Este não é o ponto Doutor. Sei qual é seu propósito, confio no senhor, se é que posso tratar com toda essa informalidade?
- Sim, deve, afinal somos amigos, não somos?
- Prefiro acreditar que sim. O senhor deve estar acostumado a tais investigações, mas adianto-lhe que deve ser o mais cauteloso possível, não se envolva com a minha história, na maioria das vezes sequer eu acredito nela, logo não sei quando estou a dizer a verdade acerca de um fato ou quando estou mentindo. Aviso-lhe também que costumo tornar minha às memórias de outras pessoas, tente não me revelar nada sobre sua vida pessoal, seus interesses, ambições...
- Caro Henrry, informo-lhe que estou habituado com estes protocolos, pois sou psiquiatra.
- Entendo, pois também sou psiquiatra.
- Vamos iniciar com algo simples, me relate como foi seu dia hoje.
- Bem, hoje eu acordei antes do nascer do sol, como de costume, incrível como no outono o humor é triste, não digo do meu apenas, tenho por base aquele esquilo que vaga em busca de comida, posso ver em seus olhos um pedido de socorro, não estou bem certo se posso ajudá-lo, talvez isso aconteça por que deveras deva acontecer.
Não digo isso pensando em um propósito, na realidade nunca entendi toda esta coisa toda de propósito, que algo aconteceu ou irá acontecer por algum motivo. Um amigo meu até brincou uma vez que isto nada mais era que a 3° Lei de Newton aplicada ao destino, toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido contrário”, na percepção dele tudo seriam forças opostas, mas acho isso pouco provável, afinal o que aquele esquilo fez de tão grave para eu não ajudá-lo?
Desculpe o devaneio. Continuando, sai para fazer exercícios, geralmente corro pela manhã, acredito que o ar umedecido pelo vapor do orvalho é uma das maravilhas naturais mais significantes das quais o ser humano fora possibilitado de desfrutar, entretanto nesta manhã não me senti disposto para correr. Iniciei o alongamento e passei então a executar o Baduanjin chinês.
Ao retornar para o refeitório tomei o desjejum acompanhado de 27 comprimidos, sincrético isto não, se o que tenho não tem cura, qual seria o objetivo de ingerir algum medicamento?
Depois de terminado o desjejum fui informado que receberia visita, arrumei todo o quarto como o senhor pode ver, desculpe pela monocromia em branco, sabe né normas são normas.
Após terminar de arrumar o quarto fiquei imaginando como poderia enganar o senhor, estive e estou na dúvida se conseguirei fazer isso ou serei forçado a matá-lo. Às vezes é muito complexo implantar uma idéia em alguém, tudo se apresenta como uma variante, o tom da voz, o relaxamento dos ombros, a confiança que se passa pela respiração, o movimento labial, a posição das mãos e principalmente o olhar. Geralmente consigo implantar uma idéia sem maiores problemas, logicamente que uma idéia simples induz em um trabalho simples, uma idéia complexa pode levar anos para ser maturada, quem sabe mesmo antes de eu estar preso aqui já havia planejado esta nossa conversa, bem como a forma que o senhor iria me tirar daqui? Nada mal para quem consegue prever vinte movimentos à frente, não?
Aliás, o senhor joga xadrez?
- Não muito bem.
- Que pena, é um jogo fascinante, não depende de sorte em nenhum momento do jogo, mas como toda regra tem uma exceção, o momento do sorteio de quem comandará as peças claras e por consequência fará o primeiro movimento pode ser tido como a única interferência da sorte neste jogo, que aliás também é tida como a única vantagem que um dos enxadristas pode ter sobre o outro que não àquela proveniente de sua própria técnica. O senhor já ouviu falar no número de Shannon?
- Sim, representa a grandeza da árvore de complexidade das possíveis jogadas legais executáveis no jogo.
- Magnífico, vejo que estou diante de um especialista.
- Certamente não, no máximo um entusiasta.
- Um entusiasta, como queira ser chamado, não negaria uma partida contra outro entusiasta?
- Tenho escolhas?
- Achas que sim?
- Penso que não.
- Para tornar nossa partida mais interessante, quanto o senhor estaria disposto a apostar em um jogo, Doutor? Ou melhor, o que o senhor tem para apostar neste jogo?
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